Partido Ba’ath: “Estamos preparados para a retirada”

Junho 24, 2008

Por Humam al-Hamzah
Jornal Oriente Médio Vivo
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PARTIDO BA’ATH: “ESTAMOS PREPARADOS PARA A RETIRADA”

A presença do Partido Ba’ath, de Saddam Hussein, ressurgiu no Iraque após a mais recente entrevista de Izzat Ibrahim Ad-Douri, que lidera a lista de procurados dos Estados Unidos no Iraque com uma recompensa de 10 milhões de dólares por informações que levem à sua captura. O retorno de Ad-Douri e o fortalecimento do Ba’ath no Iraque sob ocupação representam a mais nova ameaça para os Estados Unidos.

Izzat Ibrahim Ad-Douri foi entrevistado pelo egípcio Abdel-Azim Manaf, editor-chefe do jornal Al-Mawqif Al-Arabi, no dia 26 de maio de 2008. A entrevista foi comprada também pela agência internacional Associated Press (AP). Segundo a agência, o “diálogo aconteceu nos campos de batalha, com o comandante em seu esconderijo, ao lado de seus soldados, imerso em sons de tiros e explosões do lado de fora”. O ex-comandante do exército iraquiano, e homem mais próximo de Saddam Hussein sob o governo do Ba’ath, deu a entrevista como “Comandante Supremo da Frente de Libertação e Jihad e Secretário-Geral do Partido Ba’ath no Iraque”. Até então, os militares estadunidenses acreditavam que “Ad-Douri teria uma importante participação em financiar a resistência, mas pouco se sabia sobre seu envolvimento direto com as tropas em solo iraquiano”, segundo o general Petraeus, líder da ocupação no país e herói da mídia ocidental. Agora está claro que o Ba’ath está, de fato, em solo iraquiano, e que Ad-Douri nunca deixou de comandar as forças leais a Saddam Hussein na resistência à ocupação.

O comandante iraquiano identificou três fases da resistência: a primeira, durante os primeiros dias da invasão, quando o exército iraquiano foi “aconselhado a esconder suas armas e esperar”; a segunda, em “iniciar combate contra os invasores estrangeiros em pontos importantes no Iraque”; e a terceira e atual fase, que se resume em “prolongar a resistência e acumular influência em áreas sem presença da ocupação à espera da retirada” dos estadunidenses. Ad-Douri apresentou estatísticas importantes, até então desconhecidas, sobre o número aproximado de “mártires” que tem lutado pela Resistência Iraquiana desde a invasão, em 2003: “Até então, o número de mártires do Ba’ath chega a 120 mil”, afirmou. De fato, após a invasão, milhares de civis se uniram ao já presente exército do Ba’ath, para aguardar ordens de resistência, e o número de homens do então exército de Saddam Hussein mais que triplicou.

Ad-Douri vê a guerra no Iraque como “um episódio histórico e decisivo”, em que “o futuro do Ba’ath é disputado, assim como o futuro da livre nação iraquiana”. “Enfrentar a ocupação é uma responsabilidade coletiva do Ba’ath e do povo iraquiano, uma vez que todos nós fomos vítimas da invasão”. Sobre a realidade da guerra, o comandante iraquiano deixou claro que “derrotamos a aliança do mal, que está deixando o Iraque pouco a pouco”, e “estamos prontos para negociar a retirada dos ocupantes”. “Amigos e inimigos conhecem a nossa estratégia. O Ba’ath não negociará com ninguém que não reconhecer essa estratégia; nem com os Estados Unidos, nem com seus intermediários [do governo-fantoche]. Se o inimigo reconhecer isso, sentaremos com eles imediatamente, negociaremos, e facilitaremos a sua retirada do nosso país com o máximo de proteção”, explicou Ad-Douri. A “estratégia” ao qual o comandante refere-se é o reconhecimento do Partido Ba’ath como representante da Resistência Iraquiana e, portanto, um partido com poder presente na política iraquiana pós-ocupação. Até o momento, as forças de ocupação consideram todos os membros do Ba’ath como “criminosos fugitivos”, e evitaram reconhecer que o partido de Saddam Hussein sempre esteve por trás da incansável resistência armada no Iraque.

Izzat Ibrahim ad-Douri não escondeu que o Ba’ath pretende subir ao poder novamente no Iraque após a retirada dos invasores estrangeiros. “O partido está a mais de meio século no Iraque; faz parte da nação iraquiana. A organização é hoje muito mais forte do que antes da invasão. Eu não vou elaborar isso agora, mas tudo vai ficar claro quando a hora certa chegar. Estamos em todas as cidades, vilas, campos, montanhas e desertos do Iraque. Fora do país, também estamos acompanhando os refugiados iraquianos que foram forçados a abandonar o Iraque”, explicou Ad-Douri, enfatizando que, por trás do banho de sangue por todo o país, o Ba’ath nunca deixou de governar, no literal sentido da palavra.

O futuro não muito distante do Iraque parece estar claramente planejado pelo Partido Ba’ath. “Não haverá trégua com os ocupantes internos [do governo-fantoche]. Desde o primeiro dia da invasão, o Ba’ath convocou a união das forças de resistência como uma necessidade histórica. Isso foi concretizado, após muito trabalho, em setembro de 2007, com a formação da Frente de Libertação e Jihad, que consiste de 33 grupos armados de resistência. Considerando isso, o Iraque não será um estado com único partido, e estrangeiros e traidores não farão parte do governo”, esclareceu o comandante. É vital lembrar que a personalidade de liderança de Izzat Ibrahim ad-Douri aparece com mais freqüência a cada vez que os planos de retirada dos Estados Unidos se intensificam. Quem sabe, o futuro do Iraque esteja muito mais vivo e concreto do que muitos imaginam.

FONTE:
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Edição nº108 –
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Jornal Oriente Médio Vivo – Edição 108

Junho 23, 2008

Assalamualaikum!

Anunciando a publicação da Edição nº 108 do jornal Oriente Médio Vivo.

As manchetes dessa nova edição são:

– Partido Ba’ath: “Estamos preparados para a retirada”
– Talibã alerta sobre captura de Cabul
– Resistência Iraquiana – eventos da semana

Além disso, é claro, a continuação da História dos Conflitos (Parte 108.), tratando do discurso de Yasser Arafat à ONU, em 1988.

As duas versões estão prontas – impressa e online.

A versão em PDF pode ser baixada diretamente nesse link:
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Entre rios de resistência

Junho 19, 2008

Por Humam al-Hamzah
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ENTRE RIOS DE RESISTÊNCIA

Desde o primeiro dia da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003, atrás das “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein, que nunca existiram, a heróica resistência do povo iraquiano se mostrou presente. A missão de conquistar o petróleo iraquiano e garantir seu controle por meio da produção e da exportação não vingou pois, coletivamente, os iraquianos sabiam que a invasão nada tinha de “liberdade” e “democracia”.

A resistência consiste em muito mais do que insurgência militar, que é falsamente sumarizada como “terroristas da Al-Qaeda” pela mídia ocidental. Não é exagero admitir que, em todos os níveis da sociedade, e com muito sacrifício, o povo iraquiano frustrou os planos imperialistas dos invasores. Na primeira manhã após a invasão ao país, na importante cidade de Al-Fallujah, e introduzindo um processo que rapidamente se expandiu por todo o Iraque, líderes locais formaram um novo governo baseado em estruturas tribais. Ao invés de esperarem pela “liberdade” e “democracia” que “estavam a caminho”, esses subgovernos evitaram revoltas civis ao formar suas próprias milícias para policiar suas comunidades. Ninguém contava com apoio dos estadunidenses. São essas dezenas de grupos locais, formados após a invasão ao país, que hoje são classificados pelos militares estadunidenses e pela mídia ocidental como “Al-Qaeda”, em uma completa e proposital ignorância da realidade da guerra.

Em outra arena, a do petróleo, o histórico fator predominante no envolvimento dos Estados Unidos no Iraque, a situação não foi diferente. A missão imediata com a invasão em 2003 era a captura de terminais e campos petrolíferos, dobrar em pouco tempo os níveis de produção do pré-guerra e transferir o controle da produção e exportação para empresas estrangeiras. Nesse campo, as milícias e os civis iraquianos agiram em completa harmonia contra os interesses dos invasores. Dos mais conceituados engenheiros aos mais simples trabalhadores das refinarias iraquianas, a produção de petróleo foi completamente nulificada após a invasão. Engenheiros boicotaram o trabalho, trabalhadores sabotaram as refinarias e as milícias incendiaram campos de petróleo e oleodutos. Com isso, planos imperialistas como a imediata da transferência do porto de petróleo de Al-Basra para a estadunidense KBR, subsidiária da aliada da família Bush, a Halliburton, foram abortados.

A guerra pelo petróleo continua, mas mesmo 5 anos após a invasão, o povo iraquiano resiste. Neste início de junho, em uma total omissão da mídia ocidental, líderes sunitas e xiitas rejeitaram um novo “acordo de segurança” proposto pelos Estados Unidos ao governo-fantoche iraquiano, que garantiria o controle do petróleo, o estabelecimento de 13 bases permanentes nos quatro cantos do país e imunidade a cidadãos estadunidenses das leis iraquianas. O mandato da ONU de permanência estadunidense no Iraque termina em 31 de dezembro de 2008, e esse acordo poderia dar margens à expansão da permanência militar no país. Em mais um ato de resistência, figuras importantes do governo recusaram o pacto, e forçaram os Estados Unidos a iniciar uma procura por novas vias de burlar as leis da ONU.

Uma recente pesquisa conduzida pela World Public Opinion avalia que 78% dos iraquianos são contra a presença das forças estrangeiras no país, e “acreditam que a presença dos mesmos contribui com a violência, ao provocar mais conflito do que prevenir”. Mais do que isso, 53% dos iraquianos acreditam que “a segurança irá melhorar em poucas semanas após a retirada”. Os iraquianos pagaram um preço terrível pela resistência. A invasão e as mudanças sociais e econômicas que lhe acompanharam destruíram o Iraque, deixando a sociedade arruinada. Conscientemente, eles se sacrificaram para conter o avanço dos Estados Unidos pelo Oriente Médio, rico em petróleo e no coração das terras árabes. A resistência vive!

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Mais um golpe de mídia contra o Irã?

Junho 18, 2008

Por Humam al-Hamzah
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MAIS UM GOLPE DE MÍDIA CONTRA O IRÃ?

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) publicou em sigilo para a ONU o seu novo relatório sobre o programa nuclear do Irã. Os Estados Unidos foram rápidos em acusar os iranianos, por intermédio da Secretária de Estado Condoleezza Rice, afirmando que “os iranianos têm muito a explicar”. Felizmente para os estadunidenses, como o relatório não foi revelado publicamente, abriu-se mais uma janela para que palavras sejam trocadas como convir, e a mídia ocidental cumpriu seu papel em atemorizar todos sobre o “perigo que representa o Irã”. Se o relatório finalmente tornar-se público, será tarde demais para apagar a falsa retórica construída.

A mesma estratégia foi utilizada para viabilizar uma invasão ao Afeganistão, depois ao Iraque, e agora ameaça o Irã. Meses antes, George W. Bush acusou os iranianos de “matar estadunidenses no Iraque”, ao supri-los com “armas de combate sofisticadas”. A missão do general Petraeus, líder da ocupação no país e herói da mídia ocidental, foi encontrar e forjar alguma prova dessa acusação. Em maio desse ano, um “esconderijo de armas sofisticadas” foi encontrado por Petraeus. A mídia comemorou, e a ligação do Irã com a insurgência xiita parecia legitimar-se, mas naufragou quando especialistas estadunidenses não conseguiram encontrar provas que ligassem as armas ao Irã. Dessa forma, a história sumiu da mídia, mas as dezenas de manchetes que acusavam o governo iraniano é que marcam as pessoas – o efeito da propaganda.

O que restou então para assustar o povo ocidental é a questão do desenvolvimento nuclear iraniano, e o relatório sigiloso da AIEA foi revelado na hora certa. Antes de qualquer coisa, deve ser esclarecido que as investigações da AIEA não tratam de assuntos atuais, no caso a produção de armas sob o governo de Mahmoud Ahmadinejad, mas sim do histórico iraniano com a tecnologia nuclear desde a disseminação da técnica na década de 1980, sob coordenação do doutor A.Q. Khan, que desenvolveu a capacidade nuclear do Paquistão. De acordo com o último relatório público da AIEA, “não há evidências de um programa de armas nucleares não-declarado em lugar algum” no Irã. Os Estados Unidos e seus dois principais aliados, o Reino Unido e Israel, ignoraram o relatório e insistiram na retórica de acusações. Mas em pouco tempo ficou claro que eles perceberam que contrariar os especialistas da AIEA não os ajudava, uma vez que poderia destruir qualquer credibilidade das investigações no futuro. Isso aconteceu com o Iraque, em que estava provado pela AIEA que não havia as famosas “armas de destruição em massa”, mas não poupou Saddam Hussein de uma devastadora invasão baseada em falácias. Mais uma vez, as mentiras caíram, mas as propagandas venceram.

Os Estados Unidos queriam o petróleo iraquiano, e querem o petróleo iraniano. Saddam Hussein falou a verdade, abriu seu país para a AIEA, e foi confirmado que ele não tinha “armas de destruição em massa”. Ele pagou o preço por ter aceitado o jogo dos Estados Unidos, e ter acreditado que estaria salvo ao falar a verdade e agir de acordo com a Lei Internacional. Mas a Lei não vale nada para a Casa Branca, e a questão verdadeira sempre foi o petróleo. Nesse exato momento, advogados e diplomatas estadunidenses lutam no parlamento iraquiano para aprovar uma lei que lhes garante o controle do petróleo iraquiano, o estabelecimento de 13 bases permanentes nos quatro cantos do país e imunidade a cidadãos estadunidenses das leis iraquianas. Os iranianos já entenderam isso, e agora a comunidade internacional precisa despertar – ter ou não ter armas nucleares não é mais a questão.

O desenvolvimento de tecnologias nucleares é legal perante a Lei Internacional para os países que assinarem o Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Considerando isso, o Irã tem o direito de enriquecer urânio, já que a República Islâmica assinou o tratado ainda em 1968. Mas isso não lhes garante que a “liberdade e democracia” do ocidente não virão. O governo iraniano de Mossadeq seguia o modelo democrático ocidental, mas decidiu nacionalizar o petróleo iraniano. Como conseqüência, os Estados Unidos e o Reino Unido lhe derrubaram, e instalaram o governo-fantoche do Shah, operando ao lado de polícias secretas ocidentais. Os iranianos sabem disso, e estão preparados. Pelo menos por enquanto, a verdade venceu.

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Jornal Oriente Médio Vivo – Edição 107

Junho 17, 2008

Assalamualaikum!

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As manchetes dessa nova edição são:

– Mais um golpe de mídia contra o Irã?
– Entre rios de resistência
– Resistência Iraquiana – eventos da semana

Além disso, é claro, a continuação da História dos Conflitos (Parte 107), tratando do envolvimento dos Estados Unidos na Guerra Irã-Iraque, em 1988.

As duas versões estão prontas – impressa e online.

A versão em PDF pode ser baixada diretamente nesse link:
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Novas armas proibidas – mas não para todos

Junho 13, 2008

Por Humam al-Hamzah
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NOVAS ARMAS PROIBIDAS – MAS NÃO PARA TODOS

Representantes de 109 países reuniram-se em Dublin, na Irlanda, e aprovaram por unanimidade um tratado que proíbe o uso de bombas de fragmentação segundo a Lei Internacional. A partir de meados de 2009, a nova lei será aplicada, mas alguns dos países que mais produzem e possuem bombas de fragmentação, como os Estados Unidos e Israel, se opuseram ao acordo, não enviaram representantes a Dublin e não comentaram sobre o resultado.

Jakob Wellenberger, presidente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, afirmou que o acordo “irá prevenir muito sofrimento humano ao tornar as bombas de fragmentação ilegais”. Dezenas de grupos de direitos humanos faziam campanha há tempos para que se chegasse à proibição dessas bombas. Finalmente, vetou-se o uso de uma das armas mais mortíferas e incontroláveis dos arsenais atuais. Mas os Estados Unidos, principal produtor dessas bombas, e Israel, principal consumidor, lideraram uma campanha contra o acordo, boicotando as negociações e rejeitando o resultado final. Os aliados incondicionais tentaram convencer o Reino Unido a tomar a mesma medida, e o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, até parecia que iria ceder às pressões. Mas no momento crucial das negociações, o Reino Unido anunciou que iria eliminar todo seu arsenal de bombas de fragmentação: “Foi um grande passo para fazer do mundo um lugar mais seguro”, disse Gordon Brown sobre o acordo final.

As bombas de fragmentação são bastante criticadas pelo potencial de vitimar inocentes, uma vez que não se tem controle sobre onde explodirão. Depois de lançadas, elas se abrem e distribuem dezenas de minibombas por uma vasta área, comparada a um estádio de futebol. Muitas dessas bombas não explodem de imediato (cerca de 25%), e permanecem sob risco por décadas. Um exemplo recente do poder de destruição dessas bombas aconteceu com a invasão israelense do Líbano em 2006. Mais de 1400 civis foram mortos no mês que a invasão durou, e desde então ao menos 100 morreram e 218 foram feridos por bombas que não haviam explodido. De acordo com a ONU, Israel lançou 4,3 milhões de sub-munições de bombas de fragmentação no Líbano, das quais mais de 1 milhão não explodiu. Os Estados Unidos, que fornecem essas bombas a Israel por mais de três décadas, fabricaram todas as bombas utilizadas por Israel.

Além de terem se comprometido a não usar esse tipo de armamento, os países presentes à reunião em Dublin concordaram em destruir os arsenais dessas bombas nos próximos 8 anos. Mas ao que tudo indica, Estados Unidos e Israel ainda vão lutar contra a aplicação do acordo. “Eles concordam com o banimento das bombas, mas querem o período de 10 a 15 anos para assinarem o tratado. Durante esse tempo, [querem continuar] usando, estocando e até produzindo [essas bombas]”, disse Daniel Mack, em nome de uma rede de mais de 250 ONGs chamada Coalizão Contra as Bombas de Fragmentação, presente em Dublin.

De fato, os Estados Unidos ainda usam diariamente essas bombas nas ocupações do Afeganistão e do Iraque, e vendem milhões de dólares mensais dessas bombas para Israel. É difícil prever qual será a conduta dos “aliados incondicionais” quanto a essa questão, mas de qualquer maneira, até meados de 2009, as bombas de fragmentação continuarão a destruir cidades no Afeganistão, Iraque e nos vizinhos de Israel.

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Terrorismo em nome da “segurança nacional”

Junho 12, 2008

Por Humam al-Hamzah
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TERRORISMO EM NOME DA “SEGURANÇA NACIONAL”

Em 1976, o presidente estadunidense Gerald Ford emitiu um Decreto Executivo após revelações de que a CIA havia comandado diversas tentativas de assassinato contra Fidel Castro: “Nenhum funcionário do governo dos Estados Unidos deverá envolver-se em, ou no exercício de conspirar com assassinatos políticos”. Ironicamente, todos os líderes estadunidenses desde então conseguiram burlar essa lei, aos moldes de seus aliados em Israel, em nome da “segurança nacional”.

A Casa Branca e a CIA usam a filosofia de que um “achado de inteligência” foge dessa regra, uma vez que, para essas instituições, a proibição de assassinatos selecionados não se aplica em “tempos de guerra”. Mas difícil mesmo é encontrar um período da história em que os Estados Unidos não estiveram envolvidos em guerras. Segundo eles, a proibição “não nos impedirá de tomar as medidas necessárias contra os terroristas”, e de “agir em auto-defesa”. Portanto, basta a CIA fabricar um “achado”, rotular esse “achado” de “terrorista” e reivindicar uma missão de assassinato como um ato de “auto-defesa”, que o decreto do presidente Ford deixa de existir. Foi esse o padrão usado nos bombardeios do Afeganistão, Paquistão e Somália, para citar os mais recentes, em que centenas de civis inocentes foram mortos.

Na administração Bush, os Estados Unidos e Israel se uniram em uma campanha para estabelecer um quadro legal para encaixar as operações de assassinatos políticos selecionados. Israel, como não é novidade para ninguém, é especialista nesse assunto. A simpatia do “lar nacional judaico” com assassinatos existe mesmo antes da sua unilateral declaração de independência, em 1948. Atentados terroristas eram conduzidos pelos judeus contra os britânicos na Palestina, que controlavam a região na época, sob uma filosofia de que violência política e terrorismo eram “ferramentas legítimas” para remover obstáculos da causa sionista. Após expulsarem os britânicos, terrorismo e assassinatos eram traduzidos como campanhas de “auto-defesa” por Israel. Nada mudou até hoje, 60 anos depois, quando a resistência palestina à anexação ilegal de terras privadas, à limpeza étnica, aos seqüestros indiscriminados de pais de família e crianças e aos contínuos assassinatos são questões de “segurança nacional”.

De acordo com a organização israelense de direitos humanos B’Tselem, 231 palestinos foram vítimas de assassinatos selecionados, 385 passantes foram mortos como “dano colateral” dessas missões e “é impossível afirmar quantos foram mutilados e feridos por Israel desde a Segunda Intifada, em 2000”. Segundo a Anistia Internacional, “o uso de assassinatos de Estado por Israel contra suspeitos palestinos invalida as leis e colabora com o ciclo de violência na região”. Portanto, é ignorante, e no mínimo irônico, que essa prática de extermínios sistemáticos tenha sido defendida como “legal, eficaz e legítima” pelo procurador-geral de Israel, Ephraim Sneh. Certamente essa indiferença com a falta de precisão, confirmada pelo número maior de vítimas de “dano colateral” do que de “homens suspeitos”, e com a pura ineficácia das operações, como foi descrito pela Anistia Internacional, não é visto como um obstáculo para a contínua prática terrorista do Estado de Israel.

Dessa forma, é suspeita a postura do Departamento de Estado dos Estados Unidos durante a administração Bush, que se focou em descrever a sua “guerra contra o terrorismo” como “legal e necessária”. Segundo o vice-presidente Dick Cheney, quando questionado pela Fox News sobre a intensificação de campanhas de ataques de preempção por parte dos Estados Unidos e Israel, “se tivermos evidência de que alguém está planejando algum ataque contra nós, existe uma justificação em tentar se defender com um ataque de preempção”. Mas o que dizer então da invasão ao Iraque, em que foi comprovado que Saddam Hussein não representava ameaça alguma e não tinha as supostas “relações com a Al-Qaeda”? O estudo do conceituado jornal médico britânico The Lancet, a única análise científica realizada sobre o número de civis mortos no Iraque desde a invasão do país, publicado ainda em 2006, conta com “pelo menos 655 mil civis iraquianos mortos como resultado direto da invasão e ocupação do país”. Outro estudo com credibilidade, mais atualizado em termos de data, foi realizado pela organização britânica Opinion Research Business, que anunciou em setembro de 2007 que “cerca de 1,2 milhões de pessoas foram mortas como resultado da guerra”. O que justificaria todo esse “dano colateral”?

Nas recentes celebrações dos 60 anos de Israel, George W. Bush se ajoelhou perante os seus maiores financiadores em Israel e se declarou “orgulhoso de ser seu maior aliado e amigo”. “Vocês construíram uma poderosa democracia, que poderá sempre contar com os Estados Unidos”, disse ele ao Knesset. Portanto, as práticas criminosas dos “aliados incondicionais” indicam que os grandes terroristas do Ocidente continuarão a agir além de suas fronteiras, ignorando inclusive as suas próprias leis, em nome da “democracia”, “liberdade” e sua “segurança nacional”.

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