Obama segue os planos de Bush

É desnecessário explicar que um “plano de retirada” que envolve a permanência, por tempo indeterminado, de 50 mil soldados em um país ocupado trata-se, na realidade, de uma continuação da guerra, e não do fim dela. É esse o grande plano do “homem da mudança”, Barack Obama, para o futuro do Iraque e do povo iraquiano: uma continuação por tempo indeterminado da guerra que assolou a nação. Ao que tudo indica, a máscara do novo presidente estadunidense começou a cair, e os Estados Unidos continuarão no mesmo rumo preparado por George W. Bush.

 

Essa semana foi marcada pelo anúncio oficial do plano de Obama para o futuro do Iraque. A estratégia foi delineada no primeiro discurso sobre o Estado da União, apresentado pelo novo presidente ao Congresso em 24 de fevereiro. Barack Obama teria finalmente chegado a um acordo sobre um plano de retirada de algumas tropas estadunidenses do Iraque, após reunir-se com os generais estadunidenses, ou seja, os oficiais do Pentágono que Obama herdou do governo de George W. Bush e caladamente os manteve. Durante as campanhas eleitorais, Obama prometeu uma “retirada completa” em 16 meses. O general David Petraeus, herói da mídia ocidental e provável futuro rival de Obama para as eleições de 2012, enfatizou a importância de permanecer no Iraque por 23 meses. Sendo assim, em um plano que não pareceu envolver muito em termos de estratégia, chegou-se ao “mágico” número de 19 meses para a retirada, um meio-termo entre os dois.

 

Mas muito mais do que esse fato representar a primeira promessa quebrada de Obama, o plano de retirada do Iraque se provou cínico, uma vez que nada mais se fala sobre as antigas propagandas de uma possível “retirada completa” do país. O novo plano prevê claramente uma substancial e permanente presença militar dos Estados Unidos no Iraque, dominando não somente a política, mas também o território dessa nação rica em petróleo. Mas afinal, não era esse um dos planos originais da administração Bush? Ao implementar esse plano de continuação da guerra, Obama completarará o trabalho iniciado por George W. Bush e aquela administração militarista, da qual muitos oficiais do alto escalão permanecem integrados ao governo de Obama por decisão do próprio presidente.

 

Após o discurso de Obama, um “oficial militar sênior” do Pentágono falou em condição de anonimato ao jornal Los Angeles Times e explicou a “confusão” dos que esperavam uma retirada completa em 16 meses. “Quando o presidente Obama disse que deixaríamos o Iraque em 16 meses, algumas pessoas entenderam que os soldados simplesmente desapareceriam. Não é isso o que vai acontecer”, disse o oficial do governo ao jornal. De fato, não é mesmo isso o que vai acontecer – e muito longe disso. Um dos aspectos mais memoráveis do plano de Obama é o absoluto desrespeito com relação ao acordo assinado entre os Estados Unidos e o suposto governo soberano do Iraque, que garantia a retirada completa de todos os soldados estrangeiros do país até 2011. Obviamente, esse acordo, assinado nos últimos meses da administração Bush, tratava-se claramente de uma farsa para qualquer um que o analisasse por alguns minutos – exceto, é claro, para a mídia ocidental, que por dias exaltou as “complexas negociações” entre os dois governos para chegar-se a um acordo final, como se tal acordo tivesse qualquer valor. A enganação do acordo de 2008 estava clara por deixar em aberto a opção do governo-fantoche iraquiano de “pedir apoio” aos militares dos Estados Unidos por mais alguns anos, caso até 2011 os mesmos não consigam “manter o Iraque sob controle”. Como o governo atual, erguido pelos Estados Unidos, é também dependente de dinheiro, armas e treinamento militar dos Estados Unidos, fica evidente que essa cláusula do acordo representava a permanência dos estadunidenses por tempo indeterminado em solo iraquiano.

 

A máscara do novo presidente dos Estados Unidos, o “homem da mudança”, começou a cair logo cedo. Apesar disso, a mídia corporativa ocidental, na habitual fábrica de ilusões, permanece trabalhando a todo vapor em produzir pretextos de admiração por Barack Obama. Devemos contemplar Obama por abandonar qualquer menção sobre a “retirada completa” do Iraque, que ele prometeu antes de ser eleito? Há quem ainda consiga dizer que sim, principalmente no Ocidente. Mas é criminosa a hipocrisia de afirmar que o novo plano “deixa o Iraque para o povo iraquiano e responsavelmente dá um fim à guerra”, como disse Obama no primeiro discurso sobre o Estado da União. Deixar o Iraque para “o próprio povo” é um fato que o novo plano não realizará, e Obama sabe muito bem disso. O novo plano enraíza os Estados Unidos no Iraque, para que possam aliar-se aos partidos sectários do país que se unirem de maneira mais eficaz à agenda expansionista dos invasores. É simplesmente isso que o plano de Obama e Petraeus faz. O plano não irá “dar um fim à guerra”, responsavelmente ou não. Quando Obama afirma que sim, ele está mera e deliberadamente mentindo.

 

FONTE:

Jornal Oriente Médio Vivo – http://www.orientemediovivo.com

Edição nº131 – http://orientemediovivo.com/pdfs/edicao_131.pdf

 

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